Família e Carreira

Filhos de pais divorciados devem passar o Natal com a mãe ou pai? «É extremamente triste»

25 Dezembro, 2018

A psicóloga Patrícia Januário explica que esta é uma época de negociação e para ouvir o que a criança tem para dizer. Especialista aconselha a colocar o interesse da criança em primeiro lugar.

Se para muitas famílias o Natal é uma época feliz e de celebração, para outras é uma tremenda dor de cabeça.  Ana, 36 anos, ficou «extremamente triste» quando no primeiro Natal de divorciada ficou sem Bia, cinco anos, à mesa da consoada.

«Eu sabia desde o fim de novembro que ela ia passar com o pai a noite de Natal. Por razões familiares, seria assim. Tentei não pensar muito no assunto e fazer tudo normalmente, como se fosse um Natal normal. Fizemos a árvore juntas, enfeitámos a casa, fomos comprar os presentes, disse-lhe o que íamos ter na mesa e como ia ser o Natal de cada uma», começa por explicar a professora.

«Ela era pequenina, não percebia muito bem, e no dia em que o pai a foi buscar, a 24, foi como se de outro dia qualquer se
tratasse. Fiquei de rastos, e passei a noite a pensar nela e de como ela estava, e o que comeu… Foi o pior Natal de todos», diz Ana.

Os tempos modernos

A psicóloga Patrícia Januário explica que «todas estas angústias são normais. É uma ocasião que implica negociação. Os pais podem decidir estas questões por acordo mútuo ou recorrendo ao tribunal, se assim for o caso».

«Há vários aspetos a tomar em consideração nessa decisão, como as regras das famílias de origem, as questões da regulação parental e o desejo legítimo dos filhos, sobretudo quando crescem e começam a expressar aquilo que sentem e pensam», revela a especialista, confirmando, de seguida, porque estas angústias dos pais acontecem, principalmente nesta época.

«Segundo um estudo recente sobre rituais familiares na contemporaneidade, a mobilidade veio a revelar-se como categoria-chave nos discursos em torno desta data. O Natal corporiza a ideia de uma família presente, passada e, em alguns casos,
idealizada. Na descrição dos seus Natais, as pessoas entrevistadas no estudo tendem a reforçar a representação social em torno de um momento de reunião familiar por excelência, a festa nobre da família, um tempo de convívio onde todos, pais,
filhos e netos se juntam em alegria», afirma.

Para as famílias com pais divorciados este conceito é pouco alterado. «Passam a fazer parte do Natal, os princípios da alternância e rotatividade, característica que mais rapidamente ajuda a desconstruir a imagem aparentemente estável e idealizada em torno da ceia familiar. ‘Um ano é num lado, outro ano é no outro’, ‘um ano em casa dos sogros, outro ano em casa dos pais’, ‘a véspera de Natal num lado e depois o dia de Natal no outro’ ou ‘almoçamos num lado, jantamos no outro’»,
sublinha, exemplificando o que normalmente acontece.

Como decidir?

Para Patrícia Januário «é importante perguntar, em primeiro lugar, à criança ou jovem, qual a sua preferência, o que gostaria que acontecesse» no Natal, assegura. Mas há mais opções para a paz reinar: «Dividir um dia para cada um, por exemplo, véspera de Natal com o pai e dia de Natal com a mãe, é necessário verificar com a/o criança/jovem e com cada parte a importância que dão a cada uma das tradições e dias que compõem a quadra natalícia, como os valorizam, e decidir em conformidade.»

No caso de não ser possível dividir os dias ou porque as distâncias são grandes ou por outro motivo, a psicóloga aconselha a «dividir uma semana para cada um, um fica com 18 a 24 e outro com 25 a 31», ou «um ano a cada um», ou «a época de Natal para um, Ano Novo para outro». «Obviamente, que estas decisões dependem de vários fatores, se a relação de pai e mãe é pacífica, se a relação da/o criança/jovem com a família materna e paterna é pacífica», alerta a psicóloga.

Cada caso é um caso e merece ser analisado cuidadosamente e de forma aberta. «É importante apelar ao bom senso por parte dos adultos, zelando sempre pelo superior interesse da/o criança/jovem»,termina.

Tome nota!

Patrícia Januário reforça os seus conselhos: «Os pais deverão basear a sua relação na confiança, flexibilidade, abertura e
sinceridade. Mesmo quando o filho não está presencialmente com um deles, deverá ter a possibilidade de manter contacto telefónico com o outro. Independentemente do que seja decidido, neste ou noutro Natal, importa que os pais não tenham
receio de estar a abrir precedentes e que sejam flexíveis, todos os anos, perante novas decisões ou mudanças.»

 Texto: Ana Lúcia Sousa

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