Nacional

Joana Metrass revela como foge ao assédio em Hollywood nas reuniões em quartos de hotel

17 Maio, 2019

Joana Metrass era Marina em Morangos Com Açúcar, TVI, mas depressa saltou para o grande ecrã de Hollywood. A atriz contracena ao lado de Van Dame e revela como tem fugido ao assédio nos EUA.

Aos 31 anos, Joana Metrass é uma estrela de Hollywood. A atriz portuguesa tem ascendência cabo-verdiana, chinesa, holandesa, argentina, francesa e italiana. Aos 16 foi viver «sozinha», durante um ano, para os Estados Unidos. A sua perceção do mundo mudou e, desde então, não se vê a «assentar arraiais» em parte alguma. «Só de pensar nisso sufoco», garante Joana Metrass em entrevista à revista Maria. 

O maior desafio passará, necessariamente, por encontrar um equilíbrio entre a carreira internacional que já começou a construir e um futuro com filhos, algo que faz parte dos seus planos de vida. 

Numa conversa que passou pelo seu desempenho em Guerra Sem Quartel, filme no qual contracena com Jean-Claude Van Damme e que pode ser visto atualmente nas salas de cinema nacionais, e pela vivência além-fronteiras, a atriz, filha de uma das fundadoras do movimento feminista em Portugal, conta ainda como tem sido viver em Los Angeles e trabalhar na Meca do Cinema na época do movimento Me Too, de apoio às vítimas de abusos sexuais. 

 Leia ainda: De moranguita a estrela de Hollywood que contracena com Jean-Claude Van Damme

Vê-se a regressar a Portugal para ficar? 

Vejo-me a trabalhar cá, a passar temporadas cá, mas não me vejo a viver para sempre em Portugal, como não me vejo a viver para sempre em lado nenhum. Não há um sítio… nem consigo pensar nisso (risos)!

Mas quando diz que gostava de ter filhos e de assentar ligeiramente, seria onde? 

Seria metade-metade! Uma das coisas que eu gosto nos trabalhos internacionais é que, por exemplo, eu faço os castings em Los Angeles mas nunca filmo lá. Este filme foi filmado na Bulgária. Os trabalhos internacionais têm isso que me agrada: vamos viver para os sítios. Quando foi para o Era uma Vez [série emitida no AXN], vivi seis meses no Canadá.

Quando fala em trabalhos internacionais, fala especificamente de cinema norte-americano? 

Não! Tenho imensa vontade de trabalhar na América Latina, no Brasil. Até adorava fazer um filme em Bollywood [meca do cinema indiano]!

Quais são os seus projetos futuros? 

Para já, tenho uma produção entre Inglaterra, Brasil e talvez Portugal lá mais para o final do ano. É outro filme em que também serei protagonista, mas ainda não posso dizer nada.

E televisão? 

Para já, não! Mas quem sabe. Depende do que surgir.

Por cá, a sua passagem pelo pequeno ecrã está muito associada aos Morangos com Açúcar, mas a Joana teve apenas uma curta participação nesta série, de apenas um mês. É reflexo da importância que esta produção teve? 

Pensam que eu comecei nos Morangos, quando foi das últimas coisas que fiz cá. Já tinha trabalhado em televisão e em cinema, e bastante em teatro, mas a televisão chega a mais pessoas. Foi um projeto em que me diverti imenso.

Vem aí uma nova temporada. É importante para o lançamento de novos atores? 

Sabe que eu preferi estudar primeiro e começar a trabalhar depois. Mas quando entrei no mercado, senti que, em certos aspetos, estava muito atrás de colegas meus que tinham passado aqueles três anos a trabalhar no set. Por isso, acho que sim, que isso é muito importante. Os Morangos eram incríveis nisso. Se eu receber três castings para fazer amanhã, cada um com cinco páginas, consigo decorar e isso vem do treino nos Morangos.

Tem recebido convites de Portugal? 

Tenho, bastantes. Tenho muita sorte e sou muito grata por isso. Agora, é uma questão de timings e dos projetos que surgem.

«Os castings são o trabalho de um ator»

Nos Estados Unidos, a sua vida é essencialmente ir a castings em busca de oportunidades de trabalho? 

Sim. Na prática, um casting é uma oportunidade em miniatura de eu fazer aquilo que mais gosto. Todo o processo anterior, toda a criação da personagem, faz parte mesmo que seja para um casting. E estes são o trabalho de um ator, não é só estar no set a filmar que é trabalho. Durante esse tempo, estive a representar e a fazer o que mais gosto.

Ainda traduz os textos para português antes de os interpretar? 

Sempre! Não descubro os mesmos sítios de emoções se não falar na minha língua. A nível emocional, o português vai a sítios que o inglês não vai.

Quando pensa, já é em inglês? 

Já penso muito em inglês. Depende muito de onde estou e sobre o que estou a pensar. Mas sim… e também já sonho em inglês.

«O medo faz parte do nosso dia a dia»

A sua mãe, Célia Metrass, é uma das fundadoras do movimento feminista em Portugal e este tema é, naturalmente, bastante importante para si. Como é que viveu o movimento Me Too nos EUA, onde ele nasceu? 

Sabe que, como mulher nesta indústria, sinto muita diferença. E não é por, infelizmente, as mentalidades tenham mudado, pelo menos para já. Muitas das pessoas que faziam coisas que não deviam ainda acham que não faz mal, mas passaram a ter medo de o fazer e isso faz toda a diferença.

Ficaram a saber que há consequências? 

Exato. Sabem que não podem simplesmente fazer o que lhes apetece. Eu sinto-me mais segura. Já falei com colegas atrizes e elas também.

A questão do assédio sexual era realmente visível? 

Há coisas que as pessoas não têm muita noção e que é o que leva a ser possível linhas ténues. Por exemplo, ouço muitas vezes questionar «porque é que aquela mulher subiu ao quatro de hotel se não era para isso que ia?». Em Portugal, não há reuniões em quartos de hotéis, mas lá é comum. Há muitas pessoas que vivem em hotéis, onde têm mega suites com escritórios. Portanto, é normal acontecerem reuniões nessas suites. Eu conheço produtores que fazem isso e não têm segundas intenções. Quando se diz que há mulheres que subiram ao quarto do hotel, é mentira. Elas subiram ao escritório.

É essa realidade que permite que aconteçam casos de assédio? 

Porque uma pessoa chega lá acima e não sabe o que lhe pode acontecer. Profissionalmente, é complicado. O que vamos dizer? Que não subimos? É complicado.

A Joana já passou por alguma situação que a tivesse melindrado? 

(Silêncio) O que eu sinto é a mesma coisa que qualquer outra mulher que não seja atriz, que é explicar que a realidade de ser mulher é diferente. Que nunca estamos num parque de estacionamento completamente descansadas, que nunca andamos à noite numa rua sem ter a chaves do carro entre os dedos. Como atriz, tive sempre os meus cuidados para não dar por mim em certas situações. É uma coisa constante no meu dia a dia.

Precave-se de que forma? 

Por exemplo, se tenho uma reunião, tenho sempre a certeza que tenho um agente comigo, que tenho um assistente. Não me coloco numa posição em que isso possa acontecer. Mas isto é triste. É triste que a realidade da mulher seja a pensar em proteção. O medo faz parte do nosso dia a dia.

Texto: Ana Filipe Silveira; Fotos: Paula Alveno

Siga a Revista Maria no Instagram

partilhar | 0 | 0

 
Top