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Pais de Zé do Pipo falam pela primeira vez: «Foi para onde ele quis ir»

10 Janeiro, 2019

Os pais de Nuno Batista, também conhecido por Zé do Pipo, falaram pela primeira após o desaparecimento do filho.

Nuno Batista, conhecido como Zé do Pipo, desapareceu no dia 5 de novembro de 2018. Nada confirma a tese de um suicídio, mas os pais confessam que a esperança acabou.

Em Peniche, os pais de Zé do Pipo falaram com Manuel Luís Goucha, numa entrevista emotiva emitida esta quinta-feira, 10 de janeiro, no Você na TV. Inconsoláveis e em lágrimas, os progenitores do artista dão vários pormenores da rotina da vida após o desaparecimento do filho. Correram tudo desde a primeira noite até hoje. Agora, revelam já não ver «a luz» ao fundo do túnel.

«As autoridades terminaram as buscas. Acabaram por dizer que tinham de acabar e que não podiam fazer mais nada», começa por contar Carlos.

«Eles perguntam se nós sabemos ‘se foi ali?’». O «ali» é a ravina em Peniche, onde o carro de Nuno Batista, de 40 anos, foi encontrado com o telemóvel, os documentos e o casaco lá dentro.

Andou a analisar «as marés»

Convencidos de que o filho cometeu suicídio, Rosa e Carlos contam que a decisão pode ter sido tomada devido a uma doença que o «perseguia»: a bipolaridade.

«[O Nuno] chegou a dizer à mulher, que se um dia fizesse algo, que o perdoasse. Começou por dizer directamente à família que não sentia nada pela vida», relatam.

Pais tentaram de tudo para o proteger

«Nós fomos reagindo. Não o deixávamos sair de casa, conduzir e, dentro do possível, fomos resguardando e dando-lhe a assistência médica que ele precisava.»

Uma semana antes de desaparecer, Nuno Batista tentou mostrar à família que estava a melhorar.  «Ele foi um grande ator. Mostrava que estava a melhorar.  Ele premeditou para que ao pequeno espaço que nós lhe déssemos fazer o que nós estamos a pensar», explica Carlos.

«No dia 1 de novembro, no Dia de Todos os Santos, ele disse à mulher que ia dar uma volta de bicicleta e deslocou-se até Peniche.» Na altura, foi até ao sítio onde viria a ser encontrado o carro.

Nesse dia os pais falaram com ele ao telefone. «Ele atendeu o telefone, coisa que não fazia há muito tempo. Ele vi o telefone e não atendia. Ficava ali estático a olhar para o telefone e não atendia. Não tinha ação para ir atender o telefone e nesse dia atendeu», explicam.

A conversa tinham deixado os pais mais tranquilos. «’Então filho estás melhor?’ E ele: ‘Estou agora a arrumar a bicicleta, fui até ao Baleal. E a mãe disse-lhe: ‘Ai filho tão bom, olha que isso é muito bom fazes ginástica’.»

Nesta conversa, o pai também lhe perguntou se não tinha dores, porque era algo de que se queixa muitas vezes. Ao que Nuno lhe respondeu: «Não pai, estou ótimo».

Há dois anos, em 2016, na mesma altura do ano, Nuno Batista já tinha tido surtos psicóticos. «Antes nunca tinha tido nada», dizem. O artista era acompanhado por um psiquiatra que tinha sido aconselhado à família.

«Nesse momento esteve quatro meses parado e depois, em 2017, já estava a trabalhar novamente. Deixou por completo a medicação nessa altura, por auto recriação dele. Porque se sentia muito bem.»

A mãe disse-lhe: «Filho, não faças isso porque tens de fazer o desmame». Mas Nuno Batista não quis dar ouvidos aos conselhos da progenitor. «Mãe, eu sinto-me bem, por que é que eu vou tomar mais medicação? Eu sinto-me tão bem», responde a Rosa no início de 2017.

O sonho de Zé do Pipo sempre foi ser cantor

«Desde os 16 anos que andou em bandas de garagem e depois andou numa banda de baile. Depois foi quando começou nesta vida do Zé do Pipo. Ia fazer agora os dez anos em 2019 que estava com
esta personagem do Zé do Pipo», recorda o pai.

Prestes a celebrar dez anos de carreira, Nuno Batista teve uma recaída relacionada com depressões e os médicos proibiram-no de continuar a ter a profissão de cantor.

«Teve esta recaída em agosto. Esteve em 2017 bem. 2018 até meio de agosto esteve bem e depois começou a sentir aquele vazio. Sair de casa para ir para os espectáculos já era um sacrifício», explica Carlos.

O médico ainda tentou adaptar a medicação à profissão e as reações de Zé do Pipo, mas acabaria mesmo por ter de abandonar os palcos. Os pais consideram que essa foi a «gota de água» para Nuno tomar a decisão do suicídio. «Tudo nos leva a crer que sim. A partir dessa altura foi quando ele caiu na solidão.»

«Ele não me fazia sofrer a mim, ao pai e aos filhos»

Dado que o corpo nunca foi encontrado, Manuel Luís Goucha perguntou-lhes se não colocam a hipótese de Nuno Batista ter fugido. «Não, eu conheço o filho que tenho. Ele não me fazia sofrer a mim, ao pai e aos filhos. Pedimos para ele não fazer nada», diz a mãe.

«No dia em que a minha nora me liga a dizer que o Nuno estava desaparecido… saiu de casa às 14h30, a dizer que ia ao banco e à farmácia e foi. Fez um depósito, não foi à farmácia. Depois a minha nora até lhe disse que à tarde ia meter castanhas a assar. ‘Quando tu vieres elas estão assadas’ e ele disse-lhe ‘está bem, eu vou num instante, faço um depósito e já venho’», relata o pai do cantor.

A noite chegou e ninguém sabia do paradeiro de Nuno. «Meteu-se a noite e ele sem aparecer. A minha nora ligou para a polícia a dizer que havia uma pessoa nesta situação que estava desaparecida. A seguir ligou-me e eu estava a trabalhar», continua.

«O primeiro sentimento que eu tive foi ir correr toda a costa de Peniche. Eu estive no sítio onde foi o caso. Estive lá à noite e ele com o telemóvel desligado. Eu depois vim avisar a minha mulher, tive de arranjar amigos para estarem aqui à porta, para quando eu lhe viesse dar a notícia não estar sozinho», confessa Carlos com a voz embargada.

Filho mais novo diz: «Não está cá o carro do pai»

Agora, dois meses após o desaparecimento, os pais apoiam-se um no outro. «Pedimos muita força um ao outro. E é assim que nos apoiamos. Pensamos que temos de continuar a vida, que temos os nossos netinhos para apoiar

Nuno Batista e a mulher, Celeste, são pais de dois filhos, David, de 16 anos, e Gabriel, de três. «O pequenino fez perguntas nos primeiros dias. ‘Não está cá o carro do pai’, dizia. E a mãe disse-lhe: ‘O pai tem dói dói e foi curar’», relatam os avós dos meninos.

«Foi para onde ele quis ir. Foi para onde eu o ensinei a nadar»

Em lágrimas, Rosa conta que o filho escolheu o sítio onde o ensinou a nadar.

«No segundo dia foi quando demos com o carro. Andei a noite toda à procura do meu filho, eu disse ‘tenho de encontrar o nosso menino’. Foi uma loucura, quando eu vi o carro do meu filho e eu não vi. Só me apetecia era destruir aquilo tudo. Eu e o pai é que fomos dar com o carro», relata a chorar.

«Foi para onde ele quis ir foi para onde eu o ensinei a nadar», diz.

«Dizem que fugiu com dívidas»

Nas redes sociais muitas são as teorias que os utilizadores apontam. «Dizem que o meu filho fugiu com dívidas, ele não tinha. Ele quis levar a vida demais», justifica a mãe.

Agora, Rosa e Carlos apoiam a nora e os netos. «A minha nora é como seja uma filha.» E Manuel Luís Goucha remata: «Faz falta um corpo». 

Ao que a mãe reage: «Sim, para me abraçar a ele, para me despedir do meu filho. Queríamos fazer a homenagem que ele merecia. Um amor de um filho. Toda a gente o amava. (…) É o amor da minha vida, os meus netos e o meu marido, mas o meu filho é o amor da minha vida para sempre. Para toda a vida até um dia nos encontrarmos», finda a mãe inconsolável.

Leia ainda: Zé do Pipo fez música a Cristina Ferreira antes de desaparecer (ouça aqui)

Texto: Redação WIN – Conteúdos Digitais; Fotos: Impala e reprodução Instagram

 

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