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Psicóloga explica por que falham as relações de Casados à Primeira Vista

22 Novembro, 2019

Em Casados à Primeira Vista, nenhuma relação resultou em paixão ou amor. Uma psicóloga explica o que está errado no programa e que leva ao insucesso.

Casados à Primeira Vista, na SIC, é um sucesso no que a audiências diz respeito, o mesmo já não podemos dizer em relação ao objetivo primordial do programa: juntar duas pessoas que nunca se viram na vida e que, de acordo com um grupo de especialistas, são compatíveis e podem ser muito felizes!

Acontece que em nenhuma das edições portuguesas do reality show inspirado na versão australiana Married At First Sight, ou «MAFS», como é conhecido, houve um casal que tenha efetivamente resultado.

A grande questão que se coloca é: Qual é a razão que justifica este insucesso? Será que há fatores que estão a escapar aos especialistas durante o processo de avaliação dos candidatos? Ou será que o problema reside mesmo no formato do programa que tenta iniciar uma relação com um casamento?

O site da revista Maria falou com Catarina Lucas que, enquanto psicóloga clínica e terapeuta de casal, explica as razões para estes casais não darem certo, a curto e longo prazo.

Por que razão os casais escolhidos pelos especialistas não resultam? 
Esta questão de os candidatos serem avaliados por especialistas é um pouco enganadora. Nós, psicólogos, não temos instrumentos que avaliem a compatibilidade entre pessoas. Aliás, na Psicologia, isso não existe. Não há nada em termos científicos que nos diga que esta personalidade encaixa com esta. O amor não é avaliado ou medido dessa forma. Estamos a falar das emoções e nós não conseguimos fazer este tipo de análise.

Que fatores condicionam o sucesso de uma relação neste tipo de programa?

Há aqui uma questão que salta logo à vista. Neste programa estamos a começar ‘a casa pelo telhado’ e acho que este é um dos grandes fatores para que tudo isto ‘caia’. Nós não começamos a construir uma casa pelo telhado e aqui estamos a começar uma relação com o casamento. Não é suposto. Quando nós pensamos em casamento, pensamos no ‘ponto alto’ de uma relação, no início de uma nova etapa e na concretização de um sonho e, se calhar, passamos anos a idealizar o dia em que vamos casar.

«Os candidatos são ‘obrigados’ a descobrir a outra pessoa ‘à pressa’ e as relações não funcionam assim.»

Que impacto tem para o casal iniciar uma relação pelo casamento?
As pessoas estão a casar-se com um desconhecido, portanto, vai ser necessário fazer todo o processo que nós fazemos na fase de namoro. Os candidatos são ‘obrigados’ a descobrir a outra pessoa ‘à pressa’ e as relações não funcionam assim. Quando nós conhecemos alguém, nós vamos conhecendo essa pessoa, vamos sentindo admiração pela outra pessoa, há a fase do enamoramento, e há toda uma construção que aqui não existe. A mensagem que aqui é transmitida é que esta construção tem de estar feita. As pessoas precisam de tempo e oportunidade para gostarem de outra pessoa.

Nesta edição, houve casais que sentiram atração à primeira vista mas com o tempo as relações não resultaram. Porquê?
Há aqui outra questão que é comum mesmo nos casais que se conhecem em contexto ‘normal’, que é o querer que a outra pessoa corresponda aquilo que é a nossa expectativa. Nós queremos que a pessoa seja como nós idealizamos e isso não acontece. Quando os casais começam a conhecer-se, percebem ao fim de algumas semanas, que a outra pessoa, de facto, não corresponde ao que idealizavam. Muitas vezes, até percebem que têm valores e interesses muito diferentes e não pensemos que o facto de eles terem sido avaliados previamente por especialistas que nos dá essa informação na totalidade, porque não dá. É ilusório.

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O problema de idealizar o outro

É correto idealizar a pessoa que queremos ter ao nosso lado?
Tem de haver o ‘meio termo’. Evidentemente que há coisas das quais não podemos prescindir. Por exemplo, se um homem não tem o ideal de ter uma família ou de ter uma relação a longo prazo e se isso é fundamental para nós, obviamente que isto tem de estar na nossa mente quando procuramos uma relação porque mais adiante pode gerar um conflito e levar à ruptura.

«É muito importante fazer um processo de aceitação do outro, ou seja, aceitar o outro como ele é. E nós só fazemos essa aceitação quando gostamos da outra pessoa.»

Quais são os erros que cometemos ao idealizar a pessoa perfeita?
Esperar que o outro se comporte de acordo com o que nós queremos e esperar que ele cumpra determinados requisitos é obviamente negativo. Cada pessoa tem a sua individualidade e as suas características e nós temos de dar margem para a pessoa ser quem é e há uma coisa que, nos casais, é muito importante que é fazer um processo de aceitação do outro, ou seja, aceitar o outro como ele é. E nós só fazemos essa aceitação quando gostamos da outra pessoa e neste formato não temos tempo para isso.

Amor «à primeira vista». Existe mesmo?

Pode existir «amor à primeira vista» ou não?
Eu acredito mais na atração à primeira vista, no desejo à primeira vista. Para mim, o amor é uma coisa que é mais construída e que vem com o tempo. O amor implica uma vivência, uma’ história’ que se vai construindo para chegar a um amor mais companheiro e projetado no futuro. Há especialistas que defendem que, em alguns casos, existe amor à primeira vista mas há outros que não. No entanto, todos acabam por concordar que existe sim paixão à primeira vista, que é diferente do amor.

«O grande problema da química e, até mesmo, da paixão é que não mantém as relações a longo prazo.»

E essa atração à primeira vista pode ser «calculada» previamente por especialistas?
Essa não é mesmo. A química é uma coisa que nós não conseguimos avaliar e que está relacionada com fatores biológicos. Há inclusivamente estudos que defendem que até a componente do cheiro pode ser um fator de atração, ou não. O grande problema da química e, até mesmo, da paixão é que não mantém as relações a longo prazo. Obviamente que o que nos faz chegar junto de outra pessoa é a química e a atração inicial, mas a paixão diminui ao longo do tempo. Há muitos estudos que comprovam que, passado o primeiro ano de relação, a paixão já não existe ou existe numa dose muito menor.

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O que mantém uma relação a longo prazo?
Eu ponho muita tónica nos valores e na maneira de pensar porque o que faz divergir muitos casais é o facto de terem visões de futuro diferentes. Esta é uma parte que até poderia ser mais controlada, é verdade, mas quando nós falamos de casais, também falamos de amor e entra aqui a esfera emocional que é muito incontrolável. Mesmo em consulta, nós ouvimos muitas pessoas dizer: ‘Ele tem tudo, é o homem perfeito,ou ela é a mulher perfeita. É uma excelente dona de casa, é uma excelente mãe, é bonita, é trabalhadora mas eu deixei de gostar» e nós até ouvimos que, em termos de valores, está lá tudo, mas depois entra a outra parte, que é a emocional, e que não é assim tão controlável. Por muitas avaliações que se façam, nós não conseguimos avaliar ou explicar as variáveis emocionais.

Sendo o amor incontrolável, como podemos saber que realmente amamos outra pessoa?
Esta é uma parte do amor que nós não conseguimos explicar. As pessoas perguntam-me muito em gabinete: ‘Como é que eu sei que amo?’ mas não há uma resposta para isso. Eu costumo dizer: ‘Se amar, vai saber’. Nós seres humanos temos um defeito terrível que é querer controlar tudo mas nós não conseguimos controlar de quem gostamos, ou sentimos ou não sentimos. O amor não tem uma justificação lógica, é simplesmente algo que nós sentimos e este programa esquece-se disso. Por muito que tentemos controlar estas variáveis do domínio emocional, elas não são controláveis, nem mesmo por psicólogos.

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Texto: Sofia Santos Cardoso | Fotos: Divulgação SIC

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